Mês da Mulher ocorre em meio a recordes de feminicídio É preciso acabar com a naturalização da barbárie: sociedade civil e poder público têm de assumir corresponsabilidade na defesa da vida
Em 2026, o Mês Internacional da Mulher acontece no contexto de que, de uma vez por todas, a violência contra a mulher tem que acabar. Com índices de feminicídios crescentes não basta apenas o poder público ter iniciativas, elaborar políticas públicas e planos de ação. É crucial que a própria sociedade assuma a corresponsabilidade no combate a esse tipo de violência: o parente próximo, o amigo, o vizinho, todos quem presenciam ou desconfiam de abusos tem de agir para que os agressores sejam punidos.
Entre as bandeiras de luta das centrais sindicais unidas para o 8 de Março – Dia Internacional da Mulher – além do fim da escala 6×1, da soberania dos povos e de uma maior representação política feminina, está o fim do feminicídio.
Participe do Ato do 8M em São Paulo:
Onde: MASP – SP
Quando: 08/03 (domingo)
Horário: às 14h
Pelo Direito à Vida e Combate ao Feminicídio
Casos brutais registrados recentemente revelam a face extrema de um ciclo que quase sempre começa com agressões anteriores, ameaças, controle e silenciamentos. Mesmo com medidas protetivas, mulheres continuam sendo assassinadas. Em muitos casos, elas já haviam denunciado e pedido ajuda anteriormente. É fundamental que os serviços públicos funcionem com rapidez e que a rede de acolhimento esteja preparada. E é igualmente essencial que a sociedade não se omita.
Mais Mulheres na Política
Um dos eixos centrais de luta este ano também é a ampliação da representação feminina nos espaços de poder. Embora as mulheres sejam 52% do eleitorado brasileiro, ocupam cerca de 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e menos de 20% no Senado. O país aparece na 133ª posição no ranking global de representação parlamentar feminina.
Não basta aumentar numericamente a presença de mulheres: é fundamental fortalecer a eleição de mulheres comprometidas com pautas progressistas, com a defesa da autonomia, da igualdade e da proteção social. A presença feminina nos espaços de decisão impacta diretamente na elaboração de políticas públicas de proteção e promoção de direitos.
Fim da Escala 6×1 e Justiça no Mundo do Trabalho
A luta pelo fim da escala 6×1 ganha centralidade neste 8 de Março e no Mês Internacional da Mulher. Para elas, o impacto da jornada exaustiva é ampliado pela dupla ou tripla jornada. Enquanto homens dedicam em média 11,7 horas semanais ao trabalho doméstico, mulheres dedicam 21,3 horas. Entre mulheres pretas e pardas, a carga é ainda maior.
A desigualdade no mundo do trabalho dialoga diretamente com a violência estrutural. Portanto, reduzir a jornada sem redução salarial significa garantir tempo para descanso, estudo, convivência e participação política, direitos historicamente negados às mulheres.
Soberania dos povos
Quando a soberania é atacada e a democracia enfraquece, os impactos não são iguais para todos. Eles atingem primeiro e com mais força quem já ocupa posições mais vulneráveis na estrutura social e, historicamente, as mulheres estão nesse lugar.
Em cenários de crise democrática, políticas públicas de proteção social são enfraquecidas, direitos são relativizados e agendas conservadoras ganham espaço. Como as mulheres dependem mais dos serviços públicos e também carregam maior responsabilidade pelo cuidado de crianças, idosos e familiares, qualquer corte ou desmonte do Estado amplia sua sobrecarga física, mental e econômica.
Além disso, mulheres estão mais presentes em empregos precarizados e informais. Em crises, são as primeiras a perder renda ou ter seus direitos reduzidos. E em contextos autoritários, há maior controle sobre seus corpos, maior perseguição a lideranças femininas e enfraquecimento das políticas de enfrentamento à violência.
Corresponsabilidade no Trabalho de Cuidados e Soberania
A discussão sobre a realidade das mulheres tem outro ponto fundamental: a corresponsabilidade no trabalho de cuidados. O cuidado não pode ser uma obrigação quase exclusiva das mulheres. A sobrecarga física e mental adoece, por isso, é preciso dividir essa responsabilidade entre família, sociedade e Estado.
A defesa da Política Nacional de Cuidados e a ratificação de instrumentos internacionais que garantam equilíbrio entre trabalho e responsabilidades familiares são apontadas como caminhos estruturais para romper com o ciclo de desigualdade.
Ao mesmo tempo, a defesa da soberania dos povos é reafirmada como eixo político: não há soberania real onde metade da população vive sob ameaça cotidiana.